ALÉM DO MITO
Gladiadores: A História por Trás do Mito
Quem eram realmente os lutadores, como funcionavam os confrontos, e por que o gesto do polegar e a famosa frase "nós, que estamos prestes a morrer" são, na sua maioria, invenções posteriores.
Check dates and availability ↗Quem os gladiadores realmente eram
A maioria dos gladiadores não eram homens livres em busca de glória. A grande maioria era escravizada — prisioneiros de guerra, criminosos condenados ou escravos comprados especificamente para a arena — propriedade de um lanista, que gerenciava uma trupe de gladiadores como negócio e alugava os combatentes. Uma minoria era composta por voluntários livres, os auctorati, que abdicavam do seu estatuto legal por um período em troca de dinheiro, emoção ou fama; alguns eram aristocratas arruinados, outros, caçadores de adrenalina. Os gladiadores ocupavam um lugar social estranho: legalmente infames, excluídos da sociedade respeitável, mas capazes de alcançar verdadeiro estrelato e adorados pelas multidões. Era uma profissão brutal e forçada, disfarçada de desporto — mais próxima de um espetáculo letal de escravos habilidosos do que do combate honroso entre homens livres que os filmes tantas vezes sugerem. Segurar ambas as verdades ao mesmo tempo é o começo para os compreender.
As muitas variedades de caças
Os gladiadores combatiam em tipos emparelhados, cada um com armadura e armas distintas, e o fascínio residia em opor estilos entre si. Um murmillo, fortemente armado com um grande escudo, espada curta e elmo com crista de peixe, era tipicamente colocado contra um trácio, com a sua lâmina curva e pequeno escudo quadrado, ou contra um hoplomachus, com uma lança. O mais impressionante era o retiarius, que lutava quase sem armadura, com uma rede e um tridente, contando com a velocidade contra o secutor, fortemente protegido, cujo elmo liso e arredondado fora desenhado para escapar às malhas da rede. Estes emparelhamentos não eram aleatórios: equilibravam mobilidade contra armadura, alcance contra proteção, de modo que nenhum tipo era simplesmente superior. Parte da perícia do público residia em ler estes confrontos, tal como os adeptos modernos leem um duelo tático entre estilos opostos.
Tipos comuns de gladiadores e como eram emparelhados
| tipo | Armaduras e armas | Estilo de luta |
|---|---|---|
| Murmillo | Grande escudo, espada curta, elmo com crista | Pesado, defensivo, de curta distância. |
| Gladiador Trácio | Escudo quadrado de pequenas dimensões, lâmina curva, grevas altas | Ágil, cunhada sobre o escudo |
| Retiário | Rede, tridente, pequena armadura | Rápido, mantendo a distância, enredado |
| Secutor | Capacete, escudo e espada lisos | Perseguiu o retiarius, pressionado em |
| Hoplomachus | Lança, pequeno escudo redondo, adaga | Alcance longo, investida à distância |
As escolas de formação
Os gladiadores não nasciam, faziam-se — em escolas de treino chamadas ludi. A grande escola de Roma, o Ludus Magnus, ficava mesmo ao lado do Coliseu e estava ligada a ele por um túnel subterrâneo, para que os lutadores pudessem chegar à arena sem serem vistos; o seu campo de treino oval sobrevive e ainda hoje é visível. Os recrutas viviam sob disciplina rigorosa, seguiam uma dieta deliberadamente rica em hidratos de carbono — uma das suas alcunhas traduz-se aproximadamente como "homens da cevada" — e eram treinados por ex-gladiadores em técnicas especializadas de armas. O investimento em cada homem era considerável, razão pela qual uma morte em cada combate não faria qualquer sentido económico para o proprietário. Um gladiador habilidoso e que agradava ao público era um ativo valioso, para manter vivo e em evolução — não para esbanjar levianamente na areia.
Será que eles realmente lutaram até à morte?
Normalmente, não. Um gladiador bem treinado representava um investimento sério, e matá-lo em todos os combates arruinaria o seu dono, que teria de ser compensado pela morte. As lutas eram arbitradas, podiam ser interrompidas, e um lutador derrotado podia apelar à misericórdia — missio — que era muitas vezes concedida, especialmente se tivesse lutado com bravura. O famoso gesto do polegar é genuinamente incerto: as fontes latinas mencionam um "polegar virado", pollice verso, mas nunca esclarecem qual direção significava morte, e a convenção arrumada de polegar para cima-bom, polegar para baixo-mau que imaginamos vem em grande parte de uma pintura do século XIX. As estimativas variam, mas muitos gladiadores sobreviveram a muito mais combates do que o mito sugere, e alguns conquistaram a liberdade. A morte era real e frequente, mas não era o fim garantido de todos os combates.
A saudação que nunca existiu
Uma das frases mais citadas da arena — "Ave, imperator, morituri te salutant", os que vão morrer te saúdam — quase certamente nunca foi um grito de gladiador. O escritor romano Suetónio regista-a apenas uma vez, dita por condenados numa batalha naval encenada pelo imperador Cláudio, não por gladiadores no Coliseu, e não há evidência de que fosse uma saudação habitual antes do combate. Tal como o polegar para cima e para baixo, tornou-se "antiga" sobretudo pela repetição. Separar a história real da versão de Hollywood faz parte do que torna o Coliseu tão recompensador: a verdade — a coerção, a economia, a perícia, os árbitros — é mais estranha e mais humana do que o mito de homens condenados a gritar uma frase de efeito antes da morte certa.
Fama, liberdade e alguns nomes famosos
Apesar de toda a sua brutalidade, a arena podia tornar um homem famoso. Os gladiadores de sucesso viam o seu nome rabiscado por admiradores nas paredes de Pompeia, surgiam em candeeiros e mosaicos e eram, segundo alguns relatos, objetos de desejo. Um lutador que sobrevivesse a combates suficientes podia ser agraciado com o rudis, uma espada de madeira que simbolizava a libertação, e reformar-se — alguns dedicavam-se então a treinar outros. As mulheres lutavam em ocasiões raras e muito comentadas, tratadas pelos escritores como uma novidade sensacionalista. E os imperadores por vezes entravam eles próprios na arena: Cómodo ficou célebre por atuar como gladiador, para horror da elite, ainda que em combates combinados e sem risco de morte. O gladiador era, assim, simultaneamente o mais baixo dos baixos e, ocasionalmente, uma estrela — uma contradição que diz muito sobre como Roma via e precisava dos seus jogos.